domingo, 21 de junho de 2009

A história do Embuá Branco!

Antes de começar o post devo dizer que tomei diversas liberdades ao contar a história do Embuá Branco. De fato, a pequena reclamou de alguns equivocos que cometi, ou mesmo informações erradas que deliberadamente escrevi (ela mesma disse, e eu comprovo, que a casa dela é muito mais bonita e ajeitada do que eu descrevo. Mesmo o porão - comodo que em diversas casas é menos priorizado- possui organização e limpeza impecáveis). Ainda assim, achei o texto bacana e creio que ele passe alguma coisa! Espero que gostem, e espero que a pequena goste.

Post em homenagem à Pequena.
.
Outro dia a pequena encontrou um embuá branco[1] na garagem da casa dela. Ficamos viajando e eu acabei prometendo um post pra ela a respeito. Era pra ser sobre a história do Embuá branco, mas eu quero –sinto que preciso- adicionar outras coisas. Até porque a história do embuá branco, da forma que eu vou conta-lá, é banal, trivial (outras abordagens a mesma história sem dúvida dissipariam esse tom de ‘lugar comum’ e fariam da história do embuá branco um épico sem precedentes). Vamos lá
.
O Embuá branco vivia na casa da pequena, ele era mais fraco e mais lento (MAIS LENTO?!?!) que os demais embuás que viviam na casa da pequena (estes outros eram, invariavelmente, cinza escuros). Sem falar que o embuá branco não podia ficar sob o sol enquanto que seus irmãozinhos podiam permanecer um certo tempo sob uma área iluminada pelo sol (embora nenhum deles gostasse ou quisesse faze-lo).
.
Semanalmente acontecia, na casa da pequena, uma grande faxina que mobilizava toda a familia. Quando isso acontecia, todos os embuás revelados eram sumariamente executados. Era inevitavel: Sempre que mexiam naquelas velhas caixas do porão, sempre que reviravam algumas pedras no quintal ou varriam a garagem. Por isso os embuás viviam no local mais recluso possível. Mas essa estratégia não era nada boa. A casa da pequena é um lugar muito limpo. E aos poucos as caixas no porão foram sendo jogadas fora, o quintal virou uma pequena horta e a garagem não possuia mais jornais velhos ou sacos de folhas mortas. Os embuás foram sumariamente exterminados. Alguns poucos foram parar no esgoto ou no terreno baldio que há em frente da casa da pequena. Mas o embuá branco era lento, burro e fraco. Não conseguiu fugir nem nada. Não fosse pelos azulejos brancos da garagem, da cozinha e da área de serviço, ele teria sido encontrado e morto. No entanto, devido justamente a preferência da família da pequena por azulejos brancos, o embúa branco não foi encontrado e tornou-se assim, o último dos embuás.
.
Na certa, muitos diriam que a vida do embuá branco tornou-se solitária e vázia. Que o terror de não poder esconder-se em cantos escuros, ou entre caixas de papelão velhas o deixou louco. Ele era obrigado a se esconder a plena luz do dia em meio aos áridos e frios azulejos brancos da garagem. Alguns diriam que a vida do embuá branco se tornou uma agonia continua sem propósito e sem perspectivas. Simpatizo com as pessoas que pensam dessa forma, mas acho que isso é dar crédito demais aos embuás. Eles são exemplos adimiraveis de artropodes detritivoros e realizam um papel impar no ecossistema, e isso lhes basta. Bem menos do que isso basta para essas criaturas na verdade. Tentativas de poetizar e dar profundidade antropocentrica à vida desses animaizinhos são quase censuraveis.
.
A verdade é que era um bicho idiota e um dia, devido a falta de alimento, devido a algum instinto preponderante, cheiro ou feromônio, ele se dirigiu até a rua em direção ao terreno baldio em frente. No caminho ele foi flagrado pela pequena que tirou essas fotos aí dele! Pela primeira vez, ela viu em um artropode a beleza impar da vida. Mais do que isso! A carapaça fina e semi-transparente do embuá branco permitiu que ela visse muita coisa sobre o bichinho. A musculatura abaixo da pele, os poros das glandulas de secreção e as aberturas do sistema respiratório! Foi um momento impar, no sentido de que a natureza estava sendo apreciada e compreendida em toda sua grandeza.
.
Depois o embuá andou até a rua e morreu.
.
Quem sabe a história não termine aí. Quem sabe em algum lugar na casa da pequena, neste exato momento uma porção de ovos de embuá estejam eclodindo, liberando montes e montes de embuás brancos alguns dos quais sem dúvida irão crescer e se desenvolver, vivendo pela garagem, se escondendo em plena luz do dia em meio aos azulejos. Uma familia inteira de embuás brancos, um clã isolado e estranho aos outros embuás. Talvez aí esteja o começo de uma outra história de embuás...
.
Acabou a história. Como eu disse, ela é bastante trivial, lugar comum. Se eu contasse de um jeito diferente, talvez fosse uma saga (como um daqueles filmes da pixar sobre insetos ou coisa assim [2]).
.
Mas ainda assim, creio que a história sirva como boa introdução para apreciarmos um pouco, de forma poetica quase que alegorica, as possibilidades da vida. Mesmo no meio de tudo isso que chamamos de casualidades, e por causa dessas mesmas casualidades. Tem gente que diria que eu estou viajando, e estou. Mas será que tanto assim? Talvez a alegórica história do embuá branco sirva como exemplo – um modelo primordial e reduzido – de como a natureza pode ser fascinante, mesmo quando ela parece pequenina e sem graça.
.
Acho que no final de contas a história não é trivial. Em certo sentido, nenhuma história que envolve vida é trivial.
.
O post todo é dedicado à minha pequena, por causa disso, esse formalismo bobo e impessoal soa, no mínimo, estranho. Essa é uma das razões pelas quais quero adicionar a esse post algo mais apaixonado. Só que o que tenciono escrever agora não tem nada a ver com o embuá branco, por isso vou acabar esse post por aqui e escrever um outro.
.


é isso ai amigunh@s, amo vocês.
.
Fiquem com a Paz de Cristo





.
[1] – Embuá é outro nome para piolho de cobra. Eles geralmente possuem uma carapaça escura acinzentada. Esse aí possuia uma carapaça bem clara, esbranquiçada.
.
[2] – Não existem filmes de artropodes suficientes por aí. E os que existem não fazem jus ao Filo. Quem sabe “Aracnofobia” e “Joe e as Baratas” sejam os unicos exemplos de filmes que retratem de forma satisfatória nossa relação com esses animais

2 comentários:

K-roll disse...

Ê!!! Serei a primeira a comentar! Bom, como vc mesmo disse nas ressalvas, minha casa não é esse chiqueiro que vc descreveu!
Caro leitor: Não temos quintal com horta e o porão tem os livros e caixas organizadas por ordem alfabética...Os azulejos são limpos semanalmente e são claros mesmo...talvez seja por isso que o embuá quase morreu...
O dia que eu encontrei ele foi mesmo ímpar! Eu sempre via os embuás normais, que diga-se de passagem que são marrom e não cinza(!!), e sempre achei eles muito fofos pq tem muuuuuuuitas perninhas (o que esperar de um Miriápoda?!) e são dóceis ao contrário das lacraias... Mas naquele dia eu estava saindo atrasada de casa e quando passei pela garagem quase pisei numa mancha estranha no chão....a mancha era o embuá! Da cor do chão?!! Se não fosse o vaso dorsal dele (visível por transparência nas fotos) eu teria esmagado o bichinho!!! Catei o celular, tirei as fotos e quando eu voltei ele estava já do outro lado da garagem...Cerca de 2 horas ele levou pra atravessar a garagem...Mas infelizmente 2 horas depois eu procurei ele e ele estava morto na sargeta, fora do portão... E esse é o triste fim do único embuá branco que eu vi...Mostrei as fotos pro meu pai e ele disse que na terra dele ( Maranhão...)tem muitos embuás brancos...e lacraias brancas também...O que dizer? Será que nas cidades não há espaço pra artrópodes brancos?! Acho que essa história mesmo com o final triste (morrer na sargeta é sempre triste!)serve pra pensarmos um pouquinho sobre o que estamos fazendo com a natureza ao nosso redor...e que eu encotnre outros embuás pela garagem de casa... =)

Vinny disse...

Sei que esse post já é bem antigo, mas não pude deixar de fazer um comentário! Realmente é muito raro encontrar um embuá branco, e hoje pela manhã eu encontrei um e, numa circunstância quase parecida com a da K-roll, quase pisei nele, confundindo-o com qualquer outra coisa, menos o embuá. Ainda estava meio escuro e, quando acendi a luz, deparei-me com o bicho, todo branco, algo que nunca tinha visto antes (como você falou, costumam ser cinzas ou marrons). Achei legal ter visto um, branco, algo incomum, e procurei na internet algo sobre, e o único post/site que encontrei foi este daqui!