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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

#WSJscience e a ciência que as pessoas veem

Na semana passada tive a oportunidade de ver pessoas se interessando por física! O grande apito era a parada dos neutrinos viajando mais rápido que a velocidade da luz. Mas houveram ainda outras notícias. Uma pessoa que eu prezo muito no twitter comentou a seguinte notícia sobre a expansão do universo.

Comentando sobre como as tais massas escuras podem explicar a expansão acelerada do universo. O papo via tweets logo migrou para os tais neutrinos e um dos comentários me chamou a atenção “de fato, quebra-se um paradigma depois do outro”.

Como sou leigo no assunto, minha curiosidade sobre o assunto é diletante, não vou comentar nada desse papo dos neutrinos.

Em vez disso vou comentar sobre essa visão de que: “nada se sabe, os paradigmas estão mudando o tempo todo então como dizer o que é verdade e o que não é?!”. Um exemplo excelente e idiota disso veio do “Wall Street Journal” e rendeu uma Hashtag no twitter ( #WSJscience ). Gente melhor que eu já comentou essa parada aqui e aqui. Vale a pena ler logo mais.

Robert Brice, em uma coluna comentando 5 verdades sobre aquecimento global manda essa perola de inacuidade científica:

The science is not settled, not by a long shot. Last month, scientists at CERN, the prestigious high-energy physics lab in Switzerland, reported that neutrinos might—repeat, might—travel faster than the speed of light. If serious scientists can question Einstein's theory of relativity, then there must be room for debate about the workings and complexities of the Earth's atmosphere.

“A ciência não tem um consenso, nem de longe. Mês passado cientistas no CERN, o renomado laboratório de física de alta energia na Suiça, escreveu uma reportagem de que neutrinos podem –repito, podem- viajar mais rápido que a velocidade da luz. Se cientistas sérios podem questionar a teoria da relatividade de Einstein, então deve haver espaço para debate sobre os trabalhos e complexidades da atmosfera da terra”

Muito bonito não?! Concordo plenamente!! Muita gente diz que o Corinthians nunca ganhou uma libertadores, mas se cientistas sérios podem assim, sem mais nem menos, questionar EINSTEIN, então deve haver espaço para debate sobre as nuancias e particularidades dos torneios de futebol (quem sabe até uma estrelinha no escudo, não?)

A piada é de mal gosto, mas reveladora! Por trás da afirmação jaz a mesma desconfiança em relação a ciência: “Paradigmas estão mudando o tempo todo, como podemos apreender coisas acerca da nossa realidade.”

Acho que a primeira resposta para dar para tal afirmação é a de que – ao menos em algum nível – nós simplesmente podemos. Ou você acha que comentaristas em mesas redondas deveriam estar discutindo se de fato o Corinthians nunca ganhou uma libertadores meeeeesmo?

Bem, física é mais difícil de discutir que futebol. E que legal que paradigmas nessa ciência estão sendo quebrados a torto e a direito (Será mesmo??). Físicos devem estar absolutamente extasiados!!

Bem, mas vamos supor por um instante que neutrinos realmente viajem mais rápido que a luz (o que provavelmente não é o caso). E que os físicos tivessem que derrubar uma base teórica para construir outra no lugar (de novo, muito provavelmente não é o caso). Será que jogariam Einstein no lixo? Não sei não, mas sei que o GPS no seu carro funciona que é uma beleza. A razão pela qual qualquer GPS não acumula, todos os dias, erros quilométricos é que as coordenadas de satélite, são corrigidas pela relatividade einsteiniana! A relatividade da certo! Funciona, ela explica uma porrada de coisa! Se os físicos tivessem que derrubar esse edificio, teriam de erguer um outro que explicasse tudo que a relatividade explica e mais os benditos neutrinos (de novo, provavelmente não vai acontecer nada disso).

[sobre GPS e relatividade]

(Em um parenteses é bom explicar: É por isso que não adianta perguntar “E se a teoria da evolução estiver errada?”. Se ela estiver errada, vamos ter que pensar em uma outra base teórica que explique tudo que a TE explica e mais o que ela não explicar. Isso inclui o fato de que espécies de seres vivos compartilham ancestrais).

Vamos ao próximo ponto: o fato de os fisicos terem ou não um consenso sobre neutrinos, não diz nada, nada, nada, nada, nada, nada sobre o consenso dos cientistas em relação a alterações climáticas antrópicas! Discussões que rólam no meio científico giram em torno de experimentos e evidências. Da mesma forma que discussões em mesas redondas de futebol giram em torno de resultados e lances gravados. Lógico existem as polemicas ocasionais, algumas das quais insoluveis mesmo depois de observadas com replay em câmera lenta e por vários ângulos. E lógico que alguns comentaristas têm lá seu viés. Mas se o jogo terminou 3X2, ninguém vai falar que não foi 3X2. Nesse sentido a ciência continua num nicho bem distinto da teologia (contrariando ainda outro tweet que lí por aí vindo de alguém que admiro).

Mais uma vez, a coisa é mais complicada que futebol. Mas esse é o primeiro post que vomito desde o começo do ano então acho que está bom parar por aqui não.

Quem quiser um blog com informações legais de físicas sugiro fortemente o blog do Sean Carrol

Paz

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sobre as afirmações de Stephen Hawking

Eriçou minha curiosidade, nessa semana que passou, o lançamento do novo livro de Stephen Hawking, no qual, entre outras coisas, ele dispensa Deus na origem do Universo. Em meio a citações do físico mais popular da atualidade dizendo que o "porque existe uma lei como a da gravidade, o universo pode e ira criar-se a sí mesmo do nada" (tirado DAQUI, tradução livre), acabei me deparando com muita gente jogando confete, muita gente metendo o pau e muita pouca gente que tinha -de fato- lido o livro do homem. A coisa toda me deixou com a pulga atrás da orelha...
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Do que estamos falando?
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Cá eu, não sei nem o que é 'Teoria M'. Também não lí o livro do homem, e seria sabio da minha parte, talvez, me abster de escrever um post longo e maçante sobre esse assunto, atacando a ciência que eu não entendo ou defendendo minha fé de suas garras (sejam lá quais forem, exatamente, essas garras). De fato, este post não tem essa intenção e nem existiria não fossem por duas coisas: A primeira delas é que, sem muita força, eu encontrei uma porrada de textos, filminhos e links bacanas acerca de toda a controvérsia que essa história levantou. A segunda é que um colega (um desses que a gente conhece pela net), pediu minha opinião a respeito dela. Acabei achando que isso tudo daria um post legal.
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Em primeiro lugar, tem esse filminho bacana, do físico teorico Sean Carroll (não confundir com o biologo Sean B. Carroll) trocando em miudos as afirmações de Hawking acerca do universo e de Deus (que eu tirei DAQUI). Acho que esse filminho é um bom começo para essa história toda:
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O universo, então, 'se cria sózinho'. A física moderna - Stephen Hawking nos informa - mostra que o universo, obedecendo suas próprias leis, pode (ou inevitavelmente ira) 'se criar a sí mesmo' e se desenvolver até o ponto que observamos hoje. Isso -segue o argumento- não deixa nenhum espaço para a 'intervenção divina'. Sean Carroll põe as cartas na mesa: você até pode acreditar em um deus, mas trata-se de um deus que não criou nada e simplesmente não interage com o universo. Trata-se, sem dúvida, de um deus que ninguém poderia remotamente confundir com, por exemplo, o Deus das religiões abraamicas.
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Minha opinião é:
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Baseado no modelo newtoniano mecanicista, Laplace afirmou que a hípotese de Deus era inutil. Com as bases (quem sabe, mais sólidas) da relatividade e física quantica, Hawking parece chegar às mesmas conclusões. Mas acho que aí justamente está o problema. Deus, segundo O entendo -se é que entendo- não é uma hipotese cientifica, Ele É uma pessoa. Assim, minha fé não é abalada pelo fato de que não existe nenhuma 'lacuna' no mundo natural na qual Deus pareça 'caber'. Se de fato, Hawking matou de uma vez por todas o 'deus das lacunas', acho que ele fez um favor à fé Cristã. O Deus que encontramos na Bíblia (seja a percepção que os judeus tinham de um Deus de poder no AT ou a percepção de Deus de Amor recebida pelos apostolos atráves de Jesus no NT) é de alguma forma distinto do Deus 'intelectualmente satisfatório' que aparece no final de uma linha argumentativa ao qual Tomás de Aquino dava ênfase.
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O universo 'funciona sózinho'. É claro que funciona! Ele não precisa de qualquer 'gambiarra sobrenatural' para funcionar. Eu acredito que a autonomia do universo está intimamente relacionada com Deus ter descrito sua criação como 'muito boa'. Não existe (ao que tudo parece indicar) nenhum canto escuro inexpugnável e inexplicável onde uma força sobrenatural deve ter atuado para que as coisas tenham seguido seu curso, O universo é capaz de se desenvolver sózinho.
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Ao mesmo tempo, não creio que a explicação de Hawking para a 'existencia de tudo' seja completa. Acredito profundamente que Deus está por detrás da elegancia dessa autonomia e que Ele a permita e a Sustente (Deus fez assim, e não deixou nenhuma "ponta solta"). É mais embasbacante para mim que o universo com regularidades tão 'simples' e 'elegantes' tenha a autonomia necessaria para se desenvolver desde seu principio, se organizar e, em algum (ns) cantinhos específicos, produzir vida e, na vida, a capacidade para evoluir às formas mais variaveis incluindo uma(s) capaz de reconhecer o seu próprio lugar no cosmos e buscar respostas acerca do sentido disso tudo. Longe de 'quebrar o encanto', a beleza que reconheço nesse processo todo alimenta de alguma forma a fé que professo, não com a certeza de uma hipótese corroborada, mas na percepção da beleza e da maravilha do cosmos. Trata-se de fé e não 'corroboração empirica', ainda assim, diante das próprias 'leis' que possibilitam a existência, seu desabrochar dinamico e vivo, considero minha opinião coerente.
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A Criação, eu creio, não possui pontas soltas que precisam ser remendadas de forma sobrenatural, não se trata tanto de que Deus 'não faz nada', mas antes, de que Deus faz tudo.
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Links, sites e opiniões interessantes
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Bem, essa é a minha opinião. Aliás, a resposta a cima foi exatamente o que escrevi, por email, ao camarada que perguntou minha opinião. Mas isso não é de forma alguma o final da discussão (muito pelo contrário, acho que pode até ser o começo).
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O blog da Scientific American também postou um texto bacana discutindo as afirmações de Hawking e a evidência de Deus.
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Ainda, o blog "Tubo de Ensaio" também postou (AQUI) sobre as afirmações e o livro do Stephen Hawking e prometeu se aprofundar no assunto em posts subsequentes. Marcio Campos nos explica que o 'nada' do qual, segundo Hawking, o universo inevitávelmente surge sózinho, não é bem 'nada', uma vez que necessita de regularidades físicas pré existentes. Ele escreve:
Quando os crentes dizem que Deus tirou o universo do nada, é nada mesmo. Se algo já existe, ou é, não estamos mais no nada ontológico. Um amigo, no Twitter, citou um exemplo tirado de um fórum ateísta: "cientistas já realizam uma creation ex nihilo, em laboratório, criando matéria do nada, apenas usando luz." Só esqueceram de avisar o sujeito que a luz existe, então não houve "criação a partir do nada". Da mesma forma, um amigo leitor do Tubo descreveu a situação nesses termos: se o que permite a criação "do nada" proposta por Hawking é a lei da gravidade, então não estamos no nada ontológico. Ainda que não existisse a matéria, nem a energia, existiria a lei e isso já é suficiente para não estarmos mais no nada. A única maneira de contornar o problema é não atribuir "ser" à lei. Mas isso simplesmente não faz sentido.
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Além disso, o blog também cita dois links, ESSE de um texto do Chicago Tribune, escrito pelo Pe. Robert Barron e ESSE de um artigo do Catholic Herald por Quentin de la Bedoyere. Vale a pena ler ambos.
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Por fim, o filmezinho abaixo (que eu também chupinhei do Tubo) apresenta uma conversa entre Alister McGrath e Jon Butterworth sobre o tal assunto:




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Bem, é isso. Apesar de as vezes achar toscas essas discussões, acho que nesse caso houve a oportunidade de explorar um pouco das fronteiras entre ciência e fé. Sei lá, me deu um pouco pra pensar.
Paz de Cristo


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Adicionado em 13/09/2010:

Acabei de ler, no BioLogos um texto do Karl Gibberson sobre as afirmações do Hawking. Ele foi públicado antes no The Huffington Post. Vale a pena ler: "Hawking’s Speculation: Everything Happens".

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Adicionado em 14/09/2010

Texto no site gringo da SciAm:

Cosmic Clowning: Stephen Hawking's "new" theory of everything is the same old CRAP

quarta-feira, 7 de abril de 2010

"Você é Católico ou Evangélico"?

Estava eu andando pela rua 12 de Outubro, na feliz tarefa de comprar 'tule' (um tecido excelente para fazer telas e que pode ajudar pra fazer viveiros para insetos). Fazia tempo que não passava por aquela muvuca e o passeio levava uma certa nostalgia. De subito fui abordado por uma senhora querendo ajuda para uma sociedade assistencial. Assim que me abordou, sem mais, perguntou: "Você é Católico ou Evangélico?", quase como se, a exemplo dos jogadores do Santos Futebol Clube, a senhora fosse decidir, baseado na minha profissão de fé, se eu era digno ou não de colaborar com a tal entidade assistencial.

Vou falar, é duro ser nó cego... Hesitei! Meu primeiro impulso foi empinar o nariz encher o peito e responder "Sou evangélico" (até para ver o que a senhora iria falar a seguir, pois a sociedade assistencial que ela estava divulgando era claramente uma instituição Católica). Mas pensei: "Caramba, vai pegar mal para os meus irmãos evangélicos serem relacionados com um sem noção como eu".

Aí pensei n'uma resposta mais honesta, abaixar a cabeça e falar "minha senhora... Eu sou Corinthians..."

Por fim, com a velhinha lá esperando minha resposta, pensei no que eu deveria estar fazendo nessa vida e no Que de Verdade eu me apoiava, a minha Rocha através de mim e apesar de mim.

Olhei a senhora nos olhos e respondi: "Eu sou Cristão..."

Acabei ajudando a sociedade assistêncial com o pouco que tinha no bolso e ainda ganhei um imã de geladeira!

Paz de Cristo

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1) Chupinhado desta pergunta no Y!R

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2)A tal sociedade assistencial é a:
Sociedade Assistencial para cegos nossa senhora da Guia

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Deus não dá “reset”

É o que eu penso! Deus não dá “reset”. Ele não desiste –embora já tenha pensado sériamente no caso – Ele não se entrega (dãh). Mas o impressionante mesmo é que Ele não nos entrega (ao diabo, ao “deus dará” ou o que seja).
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Talvez seja esse o significado mais profundo que eu encontrei no relato Bíblico do dilúvio, talvez seja esse o significado do Arco-Iris, a promessa de Deus que Ele nunca mais (nunca mais mesmo) vai dar “reset” na sua Criação.
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Sem dúvida, o fato de eu pensar assim esta no cerne de porque eu não engulo a doutrina Espirita do reencarnacionismo, bem como certas interpretações escatológicas.
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(PARENTESES: no meio evangélico, onde, para muita gente ‘apologética’ é meter o pau na crença (ou descrença) alheia – algumas vezes falando um bocado de groselha – a gente tem que ter cuidado pra falar de coisa que não concorda, principalmente quando –e é o meu caso – não se é expert naquilo que se está criticando. Este aqui se propõe a ser um texto sóbrio e respeitoso de alguém que reconhece que pode estar muito bem falando merda, e cujo principal objetivo não é meter o pau na crença de ninguém. Antes, trata-se de um reflexo do meu anseio para entender algumas coisas e, no meio das chuvas catastróficas que tem abalado minha cidade, poder, no fim de tarde, olhar para um arco-iris, sabendo que aquilo significa que Deus não vai dar “reset”. Mesmo nesta cidade que, se fosse um PC, mereceria muito bem ser “formatada” )
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Mas é o que me parece sim. A meu ver, acreditar em reencarnação equivale a acreditar que sua alma é “formatada” de geração em geração. Para começar, já faz um tempo que eu não acredito muito em 'alma', pelo menos não no conceito de "essência pessoal separada da matéria". Essa história da distinção entre corpo e alma/ material e espiritual é basicamente uma herança do pensamento pagão grego para o Cristianismo (que influenciou grandão caras como Paulo e principalmente Agostinho). Não vou me aprofundar muito no assunto para não acabar falando bobagem (se é que já não é tarde), basta dizer que se eu acredito em 'alma', isso para mim se traduz nos padrões sinapticos dos neuronios dos nossos cérebros que determinam quem nós somos e são determinados, em certa medida, pela nossa herança genética, pelas nossas experiências etc. Em suma: você não é dividido em hardware e software, você é uma coisa só, integrada. Você é você! Se eu acredito que você, eu e todo mundo possui uma saída USB * que se conecta ao Transcendente (ao Espirito de Deus) a resposta é sim, mas não acredito em alma ‘fantasminha’.
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E neste sentido, também não me parece coerente com o pouquinho que eu conheço de Deus que a alma ou espírito seja submetido a diversas ‘formatações’ e aquilo que se chama “Emiliano” seja perdido, formatado, jogado fora em prol de alguma forma ‘mais elevada’. Acredito que Deus, em Seu Amor incompreensível, se importe mesmo com o “Emiliano”. Sem dúvida Ele tem poder para me transformar, numa próxima reencarnação, em um importante e asseado empresário, paciente, solicito e torcedor d’algum time tricolor de torcida recatada, apesar de pouco expressiva. Seria uma ‘evolução’**, mas aí não seria o Emiliano, não seria eu. Eu teria sido ‘resetado’ em alguma coisa diferente, e Deus quer a mim, a você, a nós do nosso jeito.
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Mas isso não é tudo, penso que Deus tenha o mesmo apreço em relação a toda Sua Criação. E partindo daí, acho difícil entender algumas doutrinas Cristãs acerca do que vai acontecer ‘no fim’ (a tal da escatologia). Entendo NADA do assunto, apenas penso com os meus botões que, o projeto de Deus para a Criação (todo o Universo), também é um projeto de redenção, não de “reset” .
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Essa dúvida particular me pulou na cabeça quando eu estava conversando (quase brigando) com a minha pequena acerca do assunto. Ela estava falando da obra que ela está lendo: “Deixados Pra Trás”. Ela me conta que no último dos 13 livros, que fala sobre o milenio, os autores retratam uma Criação refeita por Deus após 12 livros de cataclismas apocalípticos. Criação essa, descrita como “mais abundante” do que a anterior.
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OK, talvez exista uma ou duas referências Bíblicas bonitinhas e incontestáveis para justificar essa interpretação dos autores, mas eu fiquei pensando: “Como é possível? Como pode?”. Fiquei pensando nesse milênio, cheio de florestas que cresceram do dia para noite, pomares, com leopardos, zebras, gnus e, até onde sabemos, tiranossauros e Achantostegas, convivendo pacificamente. Com uma diversidade ainda mais abundante e embasbacante que as 300.000 espécies de besouro que temos hoje (talvez com muitas mais recentemente ‘inventadas’).
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Pensei em tudo isso e voltei a perguntar: “Mas como assim?” Penso que dá mesma forma que eu, todo o resto da Criação tem uma história, uma herança única que da a ela sua beleza (e falo isso me referindo desde as formigas no jardim até às Luas de Saturno). Também nesse sentido, minha esperança não é a do “reset”, mas a da redenção, a do renovo.
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Como imaginar um barato desse? Esse renovo? Acho que isso é assunto para um outro post, mas tenho refletido sobre como o tamanho da Criação pode nos ajudar a ver um Deus ainda maior... talvez faça sentido a citação de Teilhard de Chardin: "incessantemente, ainda que imperceptivelmente, o mundo está constantemente a emergir um pouco mais acima do nada". Nesse sentido, nem aquilo que somos é um HD sendo constantemente formatado pela eternidade e colocado dentro de um PC diferente. E nem a Criação é um fusca velho, quebrado que algum dia ira se transformar, como que da noite pro dia, numa Ferrari, mas sim uma obra em andamento, na qual a Redenção e o Reino de Deus penetram e permeiam “incessantemente, ainda que imperceptivelmente”.
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Viajei grandão né.
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É isso aí
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Paz de Cristo

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*Foi nesse momento que, enquanto escrevia, eu percebi que a metáfora tinha ido longe demais... Já era tarde para voltar atrás, no entanto.
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**isso é discutível...

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Seres humanos (não muito brilhantes é verdade), mas, ainda assim, seres humanos


Sairam os vencedores do 'Darwin Awards' de 2009. Pra quem não sabe, "Darwin Awards" é uma homenagem postuma concedida a pessoas que retiram seus genes do pool genico de alguma forma 'pouco-brilhante'.

Geralmente se tratam de pessoas que tiveram ideias terrivelmente pouco inteligentes (como o cara que tentou comer uma salamandra venenosa), ou erros crassos de calculo (como os 2 ladrões que calcularam mal a quantidade de explosivo necessaria para explodir a parede de um banco e acabaram indo junto com a parece, campeões do ano passado).

A coisa toda parece engraçada até que me lembro do campeão do 'Darwin Awards' de 2008. O infame 'padre dos balões'. Não sei porque, talvez por ter ouvido um pouco do desespero dos conhecidos do tal padre, fiquei intensamente incomodado com as piadinhas e brincadeiras em cima do incauto padre. Não achei a história engraçada, antes trágica e infeliz. Penso que é uma faceta das mais terríveis do ser humano poder fazer piada acerca da morte de uma pessoa como se fosse... bem, como se fosse uma piada mesmo.

Então fica aqui meu protesto (sério) em favor daqueles que sofreram seleção negativa. Sabendo também que poderia muito bem ter sido eu o indicado a receber a tal homenagem, já fiz minha parcela da façanhas pouco inteligentes e nada responsáveis na minha vida, e tenho que agradecer o fato de que o acaso tem seu papel nos processos de genética de população, bem como ao Santo Espirito de Deus que já há um tempo tem tido o misericordioso trabalho de dissuadir minha alma dessa sorte de atividade.

Sei lá, pode parecer bobagem (eu mesmo estou aqui me perguntando acerca da validade deste post), mas pensando em programas de TV como Jackass, cujos participantes parecem tentar (até agora sem susseso) retirar seus genes do pool genico, bem como em mortes que são tão estupidas e tão trágicas - e nada engraçadas (ex. um motorista embriagado). Penso que isso tudo vale para uma reflexão mais profunda acerca do valor da vida...


Paz de Cristo



quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

'Cabeça aberta', 18 e outras histórias

Acabei de ler o livro "Mind Wide Open" de Steven Johnson (lançado em portugues pela editora Jorge Zahar com o titulo "De cabeça Aberta").
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O livro busca explicar para o público leigo, em linhas gerais, o que sabemos sobre o funcionamento do cérebro, e como isso pode ser útil em nos auxiliar a lidarmos melhor com nossa 'cabeça'. O autor faz questão de maneirar nos nomes complicados de partes do cérebro e neurotransmissores (e ele faz um excelente trabalho. É claro, é inevitavel mencionar o 'sistema limbico' ou o neurotransmissor 'oxitocina', mas eu apenas imagino o tipo de nomenclatura que pessoas que se especializam nessa área tem que aturar).
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O livro é excelente! MUITO BOM mesmo! No entanto, em vez de escrever uma 'review' do livro (leia uma AQUI), vou tecer uns breves comentários sobre o que o livro me fez pensar. E ele com certeza me fez pensar!
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A primeira coisa que me veio a cabeça é que sem dúvida os avanços da neurologia moderna podem (e o livro mostra isso) ajudar muito a entender nosso próprio comportamento em muitas situações. Como minha cabeça funciona? Eu sou autista? Talvez eu devesse tomar uns bloqueadores beta antes de falar em público? [ok, isso é um exagero... Ah, e eu também NÃO sou autista].
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Não só isso, mas também surgem diversas questões excitantes e desafiadoras para quem tem fé e crê que a mente (alma??) de um ser humano transcende de alguma forma a organização sinaptica da sua rede neuronal moldada por seus genes e sua história de vida: Onde fica a alma? O amor é apenas uma liberação de oxitocina em regiões especificas do nosso cérebro? Um abraço, uma mãe amamentando, correr todas as manhãs, são apenas formas de naturalmente alimentar com opióides nosso cérebro viciado?
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Questões pulularam no meu cérebro
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Uma das questões das quais quero falar brevemente é em relação ao autismo.
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Pra muita gente autismo é sinonimo de retardamento mental, ou coisa assim. O negócio é, na verdade, um pouco diferente. Autismo é uma 'cegueira' em nossos níveis de comunicação social!
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O livro explica que o ser humano possui, no cérebro, um sistema que 'já vem instalado', que possibilita o reconhecimento de outras pessoas e a identificação de que estas possuem sensações, sentimentos e recebem estimulos ambientais. Um bom exemplo é constatar que bebes de apenas 6 meses são capazes de seguir o olhar de uma pessoa que calha de estar olhando para o canto da sala. Pode parecer trivial, certo? Isso justamente por ser uma habilidade inata. Na verdade o simples reconhecimento por parte do bebe que a coisa que esta olhando para ele é uma pessoa, que essa pessoa recebe estimulos externos, que as 'bolas' na cara dessa pessoa são orgãos particulares de recepção de estimulos e 'apontam' para a região de onde vem o estimulo a ser recebido, nada disso é trivial e precisariamos aprender isso se já não nascecemos sabendo. Essa comunicação não verbal toda é importantissima para animais que exibem comportamento social e, principalmente, uma boa dose de cuidado parental.
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E isso é só um exemplo. Reconhecimento de sorriso, cara de tristeza, cara de preocupação, cara de invejoso cara de orgulhoso etc etc. São todos reconhecimentos e a maioria de nós consegue (bem ou mal) ler de forma inata e não completamente consciente esses sinais nos outros seres humanos com os quais nos relacionamos. Alguns fazem isso bem (imagino que bons jogadores de poquer) e alguns nem tanto (imagino que seja o caso de alguns biologos corinthianos), e alguns simplesmente não são capazes de fazê-lo. Uma pessoa autista é uma pessoa com graves deficiencias nesta área de 'leitura social'. Por algum motivo o modulo não 'vem instalado'. Existem varios níveis de autismo nos quais a pessoa tem um nivel maior ou menor de 'distanciamento social' (não estou usando a terminologia correta aqui! Imagino que se alguem que realmente entenda do assunto ler isso aqui vou receber um longo email me corrigindo). E junto com essa falta de um 'módulo' no cerebro, outros módulos compensam. Autistas geralmente tem facilidade com padrões, números puros entre outras coisas (penso que o filme Rain Man caracterize bem a coisa toda).
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Hoje acredita-se que muitos dos fisicos e matematicos mais geniais possuiam, de fato, algum nível de autismo. Tratam-se de pessoas com surpreendentes habilidades matematicas porem com uma certa falta de tato social.
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Bem, curioso com a coisa toda, corri atrás de maiores informações e achei na rede um 'AQ TEST' (teste de quoeficiente de autismo). Você caro leitor pode preencher o teste também. A média do grupo controle é 16,4. 80% dos que tiram mais de 32 possuem algum diagnóstico de autismo (outros não). Minha pequena fez o teste e tirou 9, isso significa que ela é beeem menos 'autista' que a média da população (o que não é de se surpreender, primeiro por que ela é mulher e mulheres são afetadas menos por autismo, segundo por que ela é uma moçinha extremamente extrovertida e sociavel). Já eu tirei uma 'nota' um pouco a cima da média: 18. O que significa apenas que eu sou um cara um pouco mais introvertido e com um pouco menos de 'traquejo social' do que a média da população, o que eu também já sabia.
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É bom lembrar que esse teste é SUBJETIVO e de forma alguma estritamente cientifico, ele não vai te dar um diagnóstico, por isso não leve a coisa tanto a sério. Ainda assim, após a leitura do livro, me senti extremamente compelido em 'exercitar' esse módulo de percepão social na minha cabeça, e penso que isso é bom.
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Contei toda essa histórinha, primeiro, porque ela é bem interessante. E, em segundo lugar para exemplificar um pouco da compreensão do nosso cérebro que o livro mostra. Bacana né?
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Tenho mais para falar, mas o post está ficando longo. Esperem (algum dia), um post subsequente.
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Desculpem também pelo blog ter andado meio parado. O fim de ano foi meio complicado.
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Feliz natal a todos e um 2010 porreta
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E fiquem com a Paz de Cristo









sábado, 10 de outubro de 2009

Reflexões : Atrás do Monte Improvavel


Estavamos eu a Pequena e um amigo a caminho de um farto almoço no prédio da editora Abril para o qual haviamos sido convidados por um outro caro amigo. Na saida da USP, no meio do caminho, ví que haviam caido no chão alguns figos de uma figueira. Papo vai, papo vem acabei falando para o tal amigo, enquanto caminhavamos, acerca da intima relação que existem entre figueiras e as vespas que as polenizam. Em linhas gerais, figos que a gente come não são frutas, são flores – ou melhor, inflorescências. Os figos são polenizados quando vespas entram dentro deles (por aquele ‘buraquinho na bunda do figo’) e botam ali seus ovos. Os ovos mais tarde eclodem e logo, vespinhas com o corpo cheio de pólen estão voando por aí em busca de um novo figo para botar seus ovos (e de quebra fecundar algumas florzinhas de figo com o polén). Para cada espécie de figueira existe uma espécie respectiva de vespa.
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Meu amigo ficou com aquele olhar pensativo e, como resposta a minha breve (e incompleta) explicação, mandou a frase que resultou neste post: “Isso é muito de Deus”. Imediatamente luzes vermelhas se acenderam na minha cabeça, me veio o nó na garganta que só quem é verdadeiramente chato em relação a algum assunto sabe como se sente (aquela necessidade incontrolavel de fazer o seu ponto de vista se impor. É o que geralmente acontece com alguns Corinthianos quando contestam o campeonato mundial conquistado em 2000; com alguns fãs de metal progressivo quando alguem fala que o melhor album do Dream Theater é o Six Degrees of Inner Turbulence [e é mesmo]; ou quando duas pessoas começam a discutir acerca de assuntos como cotas, aborto ou heróis da Marvel). Enfim... O sangue me subiu a façe e eu estáva pronto e preparado para dar, ao meu amigo, uma detalhada explicação a respeito de todos os processos evolutivos que deram origem a essa estreita relação entre os figos e as vespas. Um processo incrivel de co-evolução a medida em que as flores das árvores ancestrais de figo se tornavam cada vez mais compactas e condensadas: primeiro como umbelas, depois como capitulos, depois com capitulos mais e mais fechadinhos até chegar no figo. E, simultaneamente as espécies de vespas se especializavam, mais e mais, em se reproduzir, se alimentar e de quebra polenizar, o figo. Ia ser moleza, uma vez que eu acabei de ler essa semana “Escalando o Monte Improvavel” e o Dawkins utiliza precisamente esse como o seu ultimo exemplo de como a evolução, a partir de seleção da variabilidade existente, proveniente de mutações genicas, pode produzir a complexidade tamanha que observamos na vida na terra.
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Já estava abrindo a boca para explicar para meu amigo, tin-tin por tin-tin toda a história. quando um pensamento me conteve. Repeti na minha cabeça a frase do meu colega: “Isso é muito de Deus”. Pausei um pouco para refletir. Ora, afinal de contas, ele estava certo! Eu pelo menos, como meu amigo, creio e estou pronto para testemunhar que há um Deus. Que esse Deus criou todo o nosso universo. Que Ele se relaciona com sua Criação, e que Se revelou a nós a partr de Jesus Cristo. E que esse Deus está intimamente relacionado com tudo que é figos e vespas nesse planetazinho. Essas coisas são, sem dúvida, “de Deus”.
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Então onde estáva o problema? Penso que ele estava implicito! Para o meu amigo, Deus estava atrás do monte improvavel (as complexas relações entre figos e vespas). E o fato de que para ele o monte improvavel parecia um “Monte impossivel” nos remeteria ao Deus Criador, cheio de cuidados e caprichos. Ele não via a suave escalada do lado detrás do monte improvavel. Precisamente a “trilha” que eu estava prestes a abrir a boca para explicar para ele que alí estava. Longe de ser um “monte impossivel”, tratava-se, no final das contas de um “monte extremamente possivel”. Atrás dele havia uma trilha suave, tranquila e pouco ingreme, que subia de forma gradativa até o topo.
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Acho que nunca havia sentido a tensão entre a ciência que eu estudo e a fé que professo de forma tão clara quanto ali, no caminho até o predio da editora Abril. O que, afinal de contas, estava atrás do “monte improvavel”? Deus, ou uma trilha?
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Dawkins deixa a resposta dele extremamente clara ao longo de cada um de seus livros: Existe uma trilha, sempre uma trilha para cada monte improvavel (os olhos dos vertebrados, o cérebro humano, o voô dos morcegos, o comportamento reprodutivo de aves e as teias de aranha. Cada um desses “montes” tem atrás de si uma escalada tranquila cheia de intermediarios e sem quaisquer passagens ingremes). Uma trilha, e nada mais.
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O meu amigo, por outro lado, vê os “montes” improvaveis como o prédio da Abril: grandes monumentos, jamais passiveis de serem erigidos pela martelação cega das próprias forças naturais. Atrás de cada um deles há Deus. E Deus está lá justamente porque não há trilha alguma.
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Discordo dos dois.
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Concordo com os dois: Concordo com Dawkins. É inegavel, há uma trilha atrás do monte improvável. A trilha pode ser mais ou menos ingreme, mas é sempre uma trilha que o jumentinho chamado “seleção natural” e cujas pernas tem a medida da “variabilidade genética da população” pode trilhar. Dentre os “montes improvaveis” que são os seres vivos e suas caracteristicas, nunca encontraram um que não contivesse uma trilha com uma encosta tão ingreme que os musculos do jumentinho não pudessem subir, nem um caminho por detras do monte com uma vala tão grande que as pernas do jumentinho fossem curtas para cruza-lo.
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Concordo também com meu amigo: “Isso é muito de Deus”. Não apenas concordo, como uso esse post para exaltar a singela sabedoria dessas palavras (esse meu amigo é um cara muito sabio. Do tipo que sem se ligar acaba ensinando toda sorte de coisa sobre a vida pra gente). A história das vespas e dos figos. A história de tudo que é inseto polenizando tudo que é flor, de tudo que é hymenoptera, de tudo que é planta. Não apenas o ciclo ecológico tão equilibrado e dinâmico, mas também a história própriamente dita, a história natural: o desenvolvimento gradual dessas mesmas relações ecológicas desde seu principio através de cada geração: “Isso é muito de Deus”.
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Voltamos a conversar mais tarde e meu amigo se lembrou das palavras do Chesterton, de que na verdade as tais regularidades e “leis da natureza” são causalidades tão incriveis e encantadora quanto aquelas dos contos de fada (a carruagem vira abobora a meia-noite, a princesa é desperatada apenas com o beijo do principe). E cada uma dessas regularidades se parece mais com mágica do que com leis cientificas áridas. Talvez a trilha atrás do monte possa parecer, a primeira vista, arida e vazia, mas para mim (e acho que meu amigo talvez fosse gostar desse modo de ver as coisas), ela se parece mais com uma estrada de tijolos dourados, cheia daquele maravilhamento de contos de fadas do qual a ciência é cheia, e não vazia.


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Paz de Cristo

sábado, 12 de setembro de 2009

A ciência é uma opinião?

Faz algumas semanas tive uma discussão com um colega uspiano a respeito do valor da ciência. Segundo ele o desenvolvimento e andamento da ciência não dependia dos dados e informações conseguidas do mundo natural através de observação e experimentação, tanto quanto dependia da lábia e argumentação dos pesquisadores (com ou sem os tais dados). Para esse meu colega, o fato de que o conhecimento cientifico não é, nunca absoluto e que teorias hoje vigentes, amanha serão descartadas corrobora a idéia de que a ciência é, meramente, uma opinião sobre o funcionamento do mundo natural, tão boa quanto qualquer outra.
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Bem verdade, o conhecimento cientifico não é absoluto. O que hoje é consenso no meio cientifico, amanha pode muito bem ser descartado e/ou jogado no lixo. Também é verdade que, por mais que o cientista queira, ele não pode se desvencilhar totalmente da sua pesquisa. De um jeito ou de outro suas opiniões semrpe acabam aparecendo nas entrelinhas dos artigos que ele publica e palestras que apresenta. Tudo isso é verdade sim.
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Agora, eu particularmente acho muito esquizita essa história de a ciência ser só uma opinião que depende da lábia do pesquisador mais do que dos dados. 100% dos pesquisadores que eu conheço se dedicam muito mais a observação e experimentação da natureza do que em ter aulas de oratória e retórica! Se a ciência depende da coerencia do argumento e não da observação da natureza, isso não faria daquelas pobres almas que passam dia e noite nos labroratório sem contato com o mundo exterior, fazendo PCR, cultura de células, eletroforeses e etc, meio idiotas? Eles não deveriam estar aprendendo dialetica retórica e oratória? Pra que perder tanto tempo tentando padronizar uma metodologia, pipetando de forma repetitiva, vã e desesperadora para estimar a atividade de alguma enzima ou outra? O próprio fato de que naturalistas raramente são socialmente -habeis e são estereotipados como sociopatas, antisociais sem o menor tato em ocasiões sociais deveria dar uma pista de que a capacidade argumentativa é secundaria em relação a experimentação e observação.
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Pode até parecer coerente para o pessoal “de humanas”, mas quem trabalha “na bancada” sabe muito bem: aí tem coisa! (não quero ofender o pessoal “de humanas”, muito pelo contrário! Quem me conhece melhor sabe o quanto eu invejo vocês e o quanto não me dou bem com o trabalho “na bancada”. Sou um grande inimigo da bitolação que róla em alguns cursos e a falta de dialogo com pessoas que pensam diferente, por isso quando falo do “pessoal de humanas”, não falo pejorativamente. Repito que invejo vocês e aprendo constantemente e muito com o jeito “humanas” de pensar).
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Particularmente, eu não entro em aviões que voam a mais de 10.000m de altitude, não me submeto a cirurgias cardiacas, não tomo drogas com efeitos colaterais potencialmente graves, baseado em meras opiniões! Se a ciência é baseada em retória e boa argumentação e não é um jeito de explicar como a natureza funciona, então um camarada tem que ser MUITO corajoso antes de tomar antibioticos, embarcar em um avião, automovel ou mesmo elevador! Alguem poderia me acusar de ter “muita fé” na metodologia cientifica, mas é ironico que são as pessoas que duvidam, duvidam e duvidam do metodo cientifico que parecem agir por fé!
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A ciência se baseia sim, em primeiro lugar em observação e experimentação. Ela não é absoluta, mas ela tem um valor maior do que uma opinião!
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Exemplo: tenho um tio que não acredita que cigarros causam cancer! Ele cita, de novo e de novo o exemplo de uma tia-avó distante que fumava, por dia, 3 maços de Malboro vermelho sem filtro, e morreu, aos 86 anos atropelada por um caminhão de lixo. Ele, a seguir, contrapõe esse exemplo ao de um outro parente distante que só comia comida macróbiotica, era celibatário e nunca ingeriu uma gota de álcool e nunca pos um cigarro na boca. E morreu aos 32 de cancer fulminante nos pulmões!
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Tais exemplos são interessantes (e meio bizarros). No entanto, estatisticamente, tratam-se de pontos fora da reta! A partir da metodologia cientifica posso virar para o meu tio e dizer que ele esta ERRADO! Não se trata de que ele tem uma opinião e eu outra e que ambas são igualmente válidas. Estudos feitos com as substancias quimicas liberadas pelo cigarro, analise estatistica da ocorrencia de cancer em fumantes, e muitos outros estudos mostram claramente que ele esta errado. O poder da ciência consiste justamente em dizer coisas a respeito do mundo natural! Talvez amanha a historia toda mude e a gente descubra que não são as substancias contidas no cigarro que causam cancer, que talvez a coisa toda seja bem diferente - o conhecimento cientifico não é absoluto nem dogmatico... nem um pouquinho - ainda assim, a relação entre o tabagismo e o cancer vai pedir por uma explicação. Particularmente, creio que o universo é Criação de um Deus bom e perfeito e nessa condição apresenta regularidades e ordem em um nível que nós humanos podemos perceber e descobrir. Nesse sentido, a ciência é uma benção de Deus e pode – como de fato ela faz – nos levar a um melhor entendimento acerca do mundo natural, a despeito de suas limitações (e existem montes de limitações). Não se trata, em primeiro lugar, de uma opinião que toma emprestado observações do mundo natural, mas uma metodologia que tenta explicar o mundo natural.
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OK! Então por que teorias estão sempre sendo revisadas, alteradas, por que o que era valido até ontem, hoje está errado? Se a ciência se baseia, em primeiro lugar, no mundo natural, e o mundo natural não se altera, então por que a ciência esta sempre se alterando? Ótima pergunta! Foi exatamente a pergunta que meu colega me fez na fila do bandejão. Infelizmente essa história de perceber regularidades no mundo em que vivemos não é assim tão fácil, e ao longo dos anos nós, apesar de sermos muito bons nisso, viemos trombando com sérias dificuldades. Por isso, na medida em que aprendemos mais a respeito do mundo temos, constantemente que rever aquilo que já sabemos. Se alguém for depender apenas de seu senso comum, vai achar, a principio, a idéia de que a terra é plana bastante sensata. Observações mais detalhadas e essa mesma pessoa chegara a conclusão de que a terra tem uma curvatura. Mais tecnologia, satelites e aparelhos de medida e essa pessoa vai descobrir que a terra tem um formato eliptico.
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É assim que a ciência avança, não sem seus entraves, mas sempre partindo da observação e experimentação e não de opiniões prévias, gostos e desgostos. Eu já falei a cima que os gostos, desgostos e opiniões do pesquisador acabam fazendo a diferença. Não há como se livrar deles. Em temas controversos é comum que as opiniões se dividam e as “provas” não sejam conclusivas. Nesses casos a tendencia é que cada um puxe a sardinha para o seu lado. Em outras partes no entanto, as provas são, de fato conclusivas. Consensos cientificos não são conseguidos com retórica e argumentação, mas com observação e experimentação e é assim, em ultima analise que tretas cientificas são solucionadas, e é também por isso que, embora a empreitada de fato avance, ela esta constantemente sendo alterada, revista e corrigida.
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Prevejo um ou outro comentário a esse post, falando –e com razão- acerca das limitações da metodologia cientifica. Eu e o Silas (do intelecto voador, não o Silas do Disturbios Sociais) volta e meia falamos sobre isso e, da mesma forma que o Silas, esse amigo com o qual eu discuti acerca da metodologia cientifica, também tem formação em psicologia. Eu posso apenas imaginar (sópra citar m exemplo), o tamanho das tretas que surgem quando se tenta, cientificamente, transformar a própria mente humana em objeto! Nesse caso as limitações são claras e eu não vou defender a metodologia cientifica como todo-poderosa frente a essas –e muitas, muitas outras - limitações, ela não é. No entanto, para explicações acerca do mundo natural, orbita dos planetas, fisiologia digestiva de insetos, ontogenia, reações de combustão, a charge é bem clara: "Science: It works bitches". Minha opinião particular é bem menos ofensiva e tem muito a ver com minha visão de mundo: "Ciência: funciona, graças a Deus".
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Paz de Cristo

domingo, 23 de agosto de 2009

Mais sobre insetos


Já faz tempo quero escrever um pouquinho sobre meu apreço pelos prolificos animaizinhos conhecidos como insetos. Muitos perguntam com ironia: "por que Deus criou os pernilongos? Ou as moscas?" Mais do que justificar esses animais que parecem tão pouco interessados em serem justificados de sua chatisse. E que permanecem sendo irritantes justamente pelo fato de serem eles (e não os leões e os ursos) as verdadeiras feras indomaveis da natureza. As vezes penso em escrever um texto para tentar ensinar as pessoas a aprecia-los, mesmo os mais irritantes e nojentos.

Olhem eles mais de perto, são magnificas máquinas de sobrevivência, e são vitais para a sobrevivencia de tudo que é ecossistema na terra como o conhecemos.

Minhas reflexões vão ter que esperar um pouco, mas gostaria deixar com os leitores esse trecho do livro "A Criação" de E. O Wilson, no qual ele fala um pouquinho da importancia dos insetos. E explica, de forma terrível a apocaliptica, o que aconteceria se os insetos sumissem, de um dia para o outro da face da terra.




“Merecem mais respeito essas coisinhas minusculas que governam o mundo. A diversidade dos insetos é a maior já documentada entra todos os organismos: em 2006, o número total de espécies classificadas era de 900 mil. O número verdadeiro, somando as espécies já conhecidas e as que ainda estão por conhecer, pode ultrapassar 10 milhões. A biomassa dos insetos é imensa: cerca de 1 milhão de trilhões de insetos estão vivos a qualquer momento. Só as formigas, que talvez totalizem 10 mil trilhões, pesam aproximadamente o mesmo que todos os 6,5 bilhões de seres humanos. Embora essas estimativas ainda sejam rudimentares (falando generosamente), não há dúvida de que os insetos estão no alto da cadeia animal em volume físico total. Seus rivais na biomassa são os copepodes (minúsculos crustáceos marinhos), os ácaros (pequeninos artrópodes semelhantes a aranhas) e, bem no ápice, os incríveis vermes nematóides, cujas vastas populações, provavelmente representando milhões de espécies, constituem 4/5 de todos os animais da terra. Será que alguém acredita que essas pequeninas criaturas existem apenas para preencher espaço?

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As pessoas precisam dos insetos para sobreviver, mas os insetos não precisam de nós. Se toda a humanidade desaparecesse amanha, não teríamos, é provável, a extinção de uma única espécie de inseto, exceto 3 formas de piolhos que se aninham na cabeça e no corpo humanos. Mesmo assim, continuaria a existir o piolho-dos-gorilas, uma espécie bem próxima do parasita humano, que permaneceria disponível para perpetuar pelo menos algo próximo da antiga linhagem. Dentro de 2 ou 3 séculos, se o ser humano já tivesse desaparecido, os ecossistemas do mundo iriam se regenerar, voltando ao rico estado de quase equilíbrio existente a cerca de 10mil anos atrás – menos, é claro, as muitas espécies que levamos a extinção.

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No entanto, se os insetos desaparecessem, o meio ambiente terrestre logo iria entrar em colapso e mergulhar no caos. Imaginem os vários estágios desse cataclismo, tal como iria se desenrolar nas primeiras décadas:

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A maioria das plantas que dão flores – as angiospermas - , privados de seus insetos polinizadores, para de se reproduzir.

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Entre elas, a maioria das espécies de plantas herbáceas decresce até a extinção. Os arbustos e as árvores polinizados por insetos sobrevivem mais alguns anos, ou em alguns casos raros, até séculos.

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A grande maioria dos pássaros e outros vertebrados terrestres, privados da sua alimentação especializada de folhas, frutos e insetos, segue as plantas e caí na extinção.

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Desprovido de insetos, o solo não é revolvido, o que acelera o declínio das plants, uma vez que são os insetos – e não as minhocas, como em geral se pensa – os principais encarregados de remexer e renovar o solo.

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Populações de fungos e bactérias explodem e prosseguem no auge durante alguns anos, enquanto metabolizam o material das plantas e animais mortos, que vai se acumulando.

Os tipos de relva polinizados pelo vento e um punhado de espécies de samambaias e coníferas se alastram pela maior parte das áreas deflorestadas e depois conhecem algum declínio, a medida que o solo se deteriora.

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A espécie humana sobrevive, mas volta a viver de grãos polinizados pelo vento e de pesca marinha. Porém, com a fome generalizda durante as primeiras décadas, as populações humanas decaem para uma pequena fração de seus níveis anteriores. As guerras pelos controle de recursos cada vez mais escassos, o sofrimento, o declínio tumultuado para um barbarismo da idade das trevas seriam sem precedentes na história humana.

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Apegando-se a sobrevivência em um mundo devastado, e aprisionados em uma verdadeira idade das trevas do ponto de vista ecológico, os sobreviventes iriam rezar implorando a volta das plantas e dos insetos." (E. O Wilson).


Paz de Cristo

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Darwin estava certo, até certo ponto


Tomei a liberdade de traduzir ESSE texto escrito por Simon Conway Morris. Gostei do texto e acho que vai valer o esforço hercúleo de traduzi-lo para os leitores do blog. Talvez a tradução fique ruim, difícil de entender ou mesmo errada em certos pontos. Peço desculpas de antemão por meu amadorismo como tradutor, espero não ter judiado do texto para além de qualquer possibilidade de sua compreensão. Agradecerei efusivamente dicas e correções dos leitores que puderem ler e comparar o texto original.


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Darwin estava certo, até certo ponto


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Quando físicos falam, não apenas de um ‘universo estranho’, mas de um universo mais estranho do que somos capazes de imaginar, eles articulam um sentimento de ‘negócios inacabados’, o qual a maior parte dos neo-darwinistas sequer pensam a respeito. Diz Simon Conway Morris.



Alguém poderia se perguntar o que Charles Darwin, ou seu tenaz aliado Thomas Henry Huxley, pensariam a respeito da recente invasão de posters dirigidos aquelas pessoas que não tem nada melhor para fazer do que ficar olhando as laterais dos ônibus. Tais pôsteres agora servem para informar todo mundo de que “Deus provavelmente não existe”. (no entanto, se você continuar olhando para as laterais dos ônibus é bem capaz que você leia precisamente a mensagem oposta).

Diante dos estandartes ateístas, Darwin, eu imagino, teria resmungado um pouco e, no seu jeito característico, passado o problema adiante, para seu leal companheiro, Huxley. Este, suspeito ainda, teria discretamente lamentado que essa gente pudesse levar esse tipo de coisa tão a sério, mas provavelmente também olharia para a coisa toda como mais uma oportunidade para aprofundar sua agenda secular.

E o que há de novo? Darwinismo atingiu um ponto próximo a saturação e, entre seus devotos costumeiros existe pouca dúvida de que ele servira de base, convenientemente, para toda sorte de trocas de elogios e tapinhas nas costas entre defensores do ateísmo. No entanto, talvez agora não seja a hora de nos regozijarmos tanto naquilo que Darwin acertou – e, no que concerne em demonstrar a realidade da evolução, e que ela ocorre através de processos naturais não há o que discutir - mas sim na sua herança, em termos de ‘negócios inacabados’. Penso que é curioso ver como alguns aceitam a evolução como uma explicação total que abrange todo o universo, mesmo a despeito dos protestos, as vezes nada gentis, daqueles que a tratam como uma religião. Não se preocupe, a ciência evolutiva está certamente incompleta. De fato, a compreensão do funcionamento de um processo, nesse caso, seleção natural e adaptação, não acarreta, necessariamente, na aquisição de poderes preditivos acerca do que pode (ou deve) ser o resultado do processo, nesse caso, evolutivo. Também não é lógico presumir que simplesmente porque somos resultados de processos evolutivos – e nós claramente somos – isso possa vir a explicar nossa capacidade de compreender o mundo. Muito pelo contrário.

Mas espere um instante; todo mundo sabe que evolução não é previsível! Sim, temos uma biosfera rica e vibrante para adimirar, mas nenhum produto-final é mais provável (ou improvável) que outro qualquer. A sapiência cientifica explica com sua ladainha característica: mutações ao acaso, extinções em massa catastróficas e outros ‘mega-desastres’, micróbios super virulentos, tudo isso assegura certa linearidade na ‘caminhada do bêbado’, em comparação ao incessante turbulência observada na história da vida. Então não é de surpreender que quase todos os neo-darwinistas insistem que os resultados do processo – e isso incluí você e eu – são uma casualidade fortuita. Sendo assim, não será surpreendente se, por exemplo, alguém encontrar seres vivos em algum planeta distante com a capacidade de voar, mas certamente que não serão pássaros. Talvez possa ser dito que todos os sistemas vivos se desenvolvam com base em uma organização celular, mas quem ousaria prever o surgimento dos cogumelos? No entanto as evidências apontam para uma direção diametralmente oposta a esta descrita a cima! Pássaros evoluíram pelo menos duas vezes, talvez até quatro vezes. O mesmo ocorre com os cogumelos. Ambos estão entre os exemplos menos familiares de convergência evolutiva.

Convergência? Em termos simples é a explicação de como, começando de pontos de partida distintos, organismos ‘navegam’ para a mesma solução biológica. Um exemplo clássico é o olho humano em comparação aos olhos dos cefalópodes; são incrivelmente similares, e ainda assim, evoluíram independentemente. Mas não vamos nos concentrar apenas nos olhos dos polvos. Desde moléculas até sistemas sociais, a convergência está em toda parte. Esqueça também a idéia de que em biologia evolutiva quase tudo é possível, e que, em geral, trata-se de um enorme amontoado de adequações sub-ótimas. Na verdade, paradoxalmente a enorme prevalência de convergências indica fortemente que as escolhas são bem mais limitadas, mas que quando elas de fato emergem o produto é soberbo. Você sabia que olhos podem detectar apenas um fóton e nossos narizes capazes de reconhecer (‘cheirar’) uma única molécula? A evolução atingiu o limite do que é possível no planeta Terra. Em particular as portas de nossa percepção podem ser estendidas apenas através da metodologia cientifica, permitindo um grande panorama partindo no Big Bang e chegando ao DNA.

No entanto como o se deu o caminho desde um até o outro? A forma com que a complexidade emergiu e é sustentada, mesmo na quase miraculosa fábrica química que nós chamamos de ‘célula’, ainda é um tanto enigmática. Auto-organização, com certeza está envolvida, mas um dos quebra-cabeças da evolução é a ampla versatilidade de muitas moléculas, sendo utilizadas numa miríade de diferentes capacidades. De fato, hoje é legitimo falar a respeito de uma lógica se aplicando à Biologia. Com certeza, um termo que possa ser ouvido saindo da boca de muitos neo-darwinistas. Mesmo assim, a evolução evidentemente segue regras mais fundamentais. Elas são cientificas, certamente, mas são regras que transcendem darwinismo. O QUE?! Darwinismo não é uma explicação total? Por que deveria ser? Ele é, afinal de contas, apenas um mecanismo, mas se a evolução é previsível, se ela de fato possui uma lógica, então evidentemente está sendo governada por princípios mais profundos. Se você parar pra pensar o mesmo ocorre com todas as outras ciências; por que o Darwinismo deveria ser uma excessão?

Mas tem mais! Como podemos explicar a mente? Darwin se dedicou a pensar a respeito. Poderia ele confiar em seus pensamentos mais do que naqueles provenientes de um cão? Ou pior, talvez houvesse bem ali um ponto (juntamente com a origem da vida) que a sua teoria universal chegasse a uma limitação*? Sob um certo ponto de vista a primeira possibilidade, a hipotese do ‘au-au’, é mais interessante. Porque afinal de contas, ser um produto da evolução não da nenhuma garantia de que tudo aquilo que nós percebemos como racionalidade. E de fato aquilo que ciência e matemática aplicam com sucesso avassalador, tem em sua base pouco mais do que mero capricho. No entanto, se o universo é, de fato, o produto de uma Mente racional e a evolução é simplesmente o mecanismo para a busca que, levando ao sentimento e à consciencia permita que possamos descobrir a arquitetura fundamental do universo – um argumento intuido por muitos matematicos quando eles falam a respeito da eficacia impressionante das ferramentas matematicas – nesse caso, as coisas não apenas começam a fazer muito mais sentido, mas elas se tornam também muito mais interessantes. Adeus niilismo pessimista e sua fria afirmação de que tudo é sem sentido. É claro, Darwin nos disse como poderiamos chegar lá e através de qual mecanismo, mas não nos disse o por que este ocorre em primeiro lugar, e nem como somos de fato capazes de compreende-lo.

Para reiterar: Quando físicos falam, não apenas de um ‘universo estranho’, mas de um universo mais estranho do que somos capazes de imaginar, eles articulam um sentimento de ‘negócios inacabados’, o qual a maior parte dos neo-darwinistas sequer pensam a respeito. É claro, nossos cerebros são produto da evolução, mas alguém seriamente cre que a própria consciencia seja material? Bem, sim, alguns levantam precisamente esse argumento, mas as suas explicações parecem não ter se estabelecido. Nos estamos, de fato, lidando com assuntos inacabados. O funeral de Deus? Eu não creio. Por favor junte-se a mim ao lado do caixão marcado com a inscrição ‘ateismo’. Eu temo que haverão poucas pessoas de luto.

Simon Conway Morris



*A versão original traz escrito:”... theory ran into the buffers”. Não faço idéia do que seja “run into the buffers”, tive que inferir o significado.



Paz de Cristo



STOP : A destruição do mundo







Hoje na lanchonete do ICB tive a infelicidade de deitar os olhos num informativo (parecido com um jornalzinho) de divulgação gratuita: “STOP A Destruição do Mundo”. Ainda não sei que grupo está por detrás da coisa toda, mas acho que seria legal que eu tirasse algumas linhas do meu blog para falar mal do jornalzinho. Eu explico o porquê.

O jornal aparentemente faz um belo esforço para divulgar uma ‘nova idéia de medicina’ de que todas as enfermidades sofridas pelo ser humano (inclusive cáries e gripe-suina) têm origens nos desequilíbrios internos de cada pessoa.

Eles explicam que toda essa história (descrita como uma ‘teoria errônea’) de que micróbios causam doenças, ganhou força nas idéias materialistas de Augusto Comte. Um paradigma reducionista físico, segundo eles, facilitou a ampla disseminação e aceitação das tais idéias ‘errôneas’ de Pasteur.

A coisa toda vai além. Segundo a publicação, essa idéia de Pasteur ‘estancou todo o desenvolvimento da humanidade, que colocou a causa de todos os problemas de saúde em uma etiologia mentirosa que nada tem a ver com a realidade’.

Bem, Pasteur parecia ser um cara legal, porque ele mentiria dessa forma? O STOP responde! “A idéia de Pasteur foi criada erroneamente para vender medicamentos”.

O que realmente ocorre para gerar doenças, segundo o STOP, é : “1) Por causa dos maus sentimentoe e idéias, as células são deformadas.; 2)Em seguida, os microzimas (partículas) se transformam em vírus e bactérias.; 3)Provando que as doenças vêm do interior e não de fora como dizia Pasteur.”

Meu comentário:

Logicamente, fatores psicológicos e psicossomáticos tem muito a ver com a saúde do individuo. Mas ao dizer que eles são a única e principal causa. E que doenças não tem nada a ver com microorganismos externos, os caras do STOP trocam toneladas de evidências empíricas provadas e comprovadas (vacinas, só pra citar um exemplo), por uma hipótese ‘esquisita’ para o desenvolvimento de doenças.

Você já tinha ouvido falar da tal hipótese das microzimas? Bem... Nem eu. Falando cientificamente, isso não interessa. Caso a hipótese seja valida e possa ser comprovada, pesquisadores na área de microbiologia e medicina podem estar na beira de uma verdadeira revolução cientifica. No entanto, não ouço falar de muitos artigos sobre ‘microzimas’ sendo publicados em revistas cientificas. E o aparente silêncio do meio cientifico a cerca da hipótese mostrada no jornalzinho ‘STOP’ nos aponta que, provavelmente, ela é, de fato, uma idéia tão idiota quanto parece.

Os defensores das microzimas teriam, é claro, uma defesa na ponta da língua: “O meio cientifico está contaminado por uma visão materialista dogmática, eles se recusam a ver os dados de outra forma! Ademais os lucros das vendas de remédios são um grande incentivo para que eles se calem a respeito da ‘teoria rival’ das microzimas”. Infelizmente, essa defesa da uma idéia totalmente errada de como a ciência atua e funciona - e de que pesquisadores ganham dinheiro* - De fato, quem conseguir experimentalmente demonstrar as tais microzimas; que elas, a partir de stress mental se transformam e causam enfermidades, tem muito, muito a ganhar na carreira cientifica (estou falando de prêmios nobel), todo cientista na área medica daria um braço para conseguir tal experimento (caso ele seja –fosse- possível). Ainda mais se fosse de forma tão cabal e elegante quanto a que Pasteur comprovou a existência de microorganismos.

Talvez você já tenha sacado onde quero chegar. Particularmente não me daria ao trabalho de escrever algumas linhas no meu blog acerca de um informativo que eu não sei de onde veio e que - tudo indica – não vai pra lugar nenhum. Mas o STOP é particularmente didático em mostrar exatamente a ‘receita de bolo’ para criar e divulgar uma pseudociência. Não é difícil identificar todos os seus elementos no jornalzinho: As afirmações de que o meio cientifico, enviesado e/ou mal intencionado, propaga idéias errôneas e busca adequar o conhecimento cientifico a uma ‘agenda’. Esse ‘viés cientifico’, segundo eles, acaba causando a hipótese ‘alternativa’ a ser ignorada. Os defensores da ‘hipótese alternativa’ são então vistos como os ‘verdadeiramente revolucionarios’ lutando contra o dogmatismo cientifico enferrujado. E, finalmente, sob escrutínio, se percebe que essa tal ‘hipótese alternativa’ é baseada em dados obscuros e questionáveis e ignora um montão de trabalhos científicos comprovados e fatos empiricamente corroborados.

Não sei pra vocês, mas para mim isso tudo soa particularmente familiar...

Quando o assunto é “como funciona a natureza”, a melhor tática ainda é buscar na própria criação as resposta. E a maneira menos tosca de se fazer isso, me parece, é o método cientifico, mesmo com suas limitações. A parte mais bacana é que esse método abre os braços para tudo que é questionamento e critica e se propõe a discutir e testar as mais diferentes idéias. O STOP nos mostra que passar por cima daquilo que nós podemos (graças a Deus) descobrir/espremer da natureza a cerca de como ela funciona, pode ficar parecendo meio ridículo, e até chegar a ser danoso e/ou perigoso (fico imaginando se alguém para de tomar vacina ou escovar os dentes por causa desse informativo irresponsável que atribuí a ocorrência de varíola e caries ao estado de espírito do paciente).

No final das contas, acho que podemos aprender alguma coisa com "STOP A DESTRUIÇÃO DO MUNDO"

Paz de Cristo

*OK, essa piadinha veio de um biólogo, pós-graduando que trabalha com ciência básica no Brasil, por isso é exagerada e despropositada... Desconsiderem...