terça-feira, 18 de agosto de 2009

Darwin estava certo, até certo ponto


Tomei a liberdade de traduzir ESSE texto escrito por Simon Conway Morris. Gostei do texto e acho que vai valer o esforço hercúleo de traduzi-lo para os leitores do blog. Talvez a tradução fique ruim, difícil de entender ou mesmo errada em certos pontos. Peço desculpas de antemão por meu amadorismo como tradutor, espero não ter judiado do texto para além de qualquer possibilidade de sua compreensão. Agradecerei efusivamente dicas e correções dos leitores que puderem ler e comparar o texto original.


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Darwin estava certo, até certo ponto


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Quando físicos falam, não apenas de um ‘universo estranho’, mas de um universo mais estranho do que somos capazes de imaginar, eles articulam um sentimento de ‘negócios inacabados’, o qual a maior parte dos neo-darwinistas sequer pensam a respeito. Diz Simon Conway Morris.



Alguém poderia se perguntar o que Charles Darwin, ou seu tenaz aliado Thomas Henry Huxley, pensariam a respeito da recente invasão de posters dirigidos aquelas pessoas que não tem nada melhor para fazer do que ficar olhando as laterais dos ônibus. Tais pôsteres agora servem para informar todo mundo de que “Deus provavelmente não existe”. (no entanto, se você continuar olhando para as laterais dos ônibus é bem capaz que você leia precisamente a mensagem oposta).

Diante dos estandartes ateístas, Darwin, eu imagino, teria resmungado um pouco e, no seu jeito característico, passado o problema adiante, para seu leal companheiro, Huxley. Este, suspeito ainda, teria discretamente lamentado que essa gente pudesse levar esse tipo de coisa tão a sério, mas provavelmente também olharia para a coisa toda como mais uma oportunidade para aprofundar sua agenda secular.

E o que há de novo? Darwinismo atingiu um ponto próximo a saturação e, entre seus devotos costumeiros existe pouca dúvida de que ele servira de base, convenientemente, para toda sorte de trocas de elogios e tapinhas nas costas entre defensores do ateísmo. No entanto, talvez agora não seja a hora de nos regozijarmos tanto naquilo que Darwin acertou – e, no que concerne em demonstrar a realidade da evolução, e que ela ocorre através de processos naturais não há o que discutir - mas sim na sua herança, em termos de ‘negócios inacabados’. Penso que é curioso ver como alguns aceitam a evolução como uma explicação total que abrange todo o universo, mesmo a despeito dos protestos, as vezes nada gentis, daqueles que a tratam como uma religião. Não se preocupe, a ciência evolutiva está certamente incompleta. De fato, a compreensão do funcionamento de um processo, nesse caso, seleção natural e adaptação, não acarreta, necessariamente, na aquisição de poderes preditivos acerca do que pode (ou deve) ser o resultado do processo, nesse caso, evolutivo. Também não é lógico presumir que simplesmente porque somos resultados de processos evolutivos – e nós claramente somos – isso possa vir a explicar nossa capacidade de compreender o mundo. Muito pelo contrário.

Mas espere um instante; todo mundo sabe que evolução não é previsível! Sim, temos uma biosfera rica e vibrante para adimirar, mas nenhum produto-final é mais provável (ou improvável) que outro qualquer. A sapiência cientifica explica com sua ladainha característica: mutações ao acaso, extinções em massa catastróficas e outros ‘mega-desastres’, micróbios super virulentos, tudo isso assegura certa linearidade na ‘caminhada do bêbado’, em comparação ao incessante turbulência observada na história da vida. Então não é de surpreender que quase todos os neo-darwinistas insistem que os resultados do processo – e isso incluí você e eu – são uma casualidade fortuita. Sendo assim, não será surpreendente se, por exemplo, alguém encontrar seres vivos em algum planeta distante com a capacidade de voar, mas certamente que não serão pássaros. Talvez possa ser dito que todos os sistemas vivos se desenvolvam com base em uma organização celular, mas quem ousaria prever o surgimento dos cogumelos? No entanto as evidências apontam para uma direção diametralmente oposta a esta descrita a cima! Pássaros evoluíram pelo menos duas vezes, talvez até quatro vezes. O mesmo ocorre com os cogumelos. Ambos estão entre os exemplos menos familiares de convergência evolutiva.

Convergência? Em termos simples é a explicação de como, começando de pontos de partida distintos, organismos ‘navegam’ para a mesma solução biológica. Um exemplo clássico é o olho humano em comparação aos olhos dos cefalópodes; são incrivelmente similares, e ainda assim, evoluíram independentemente. Mas não vamos nos concentrar apenas nos olhos dos polvos. Desde moléculas até sistemas sociais, a convergência está em toda parte. Esqueça também a idéia de que em biologia evolutiva quase tudo é possível, e que, em geral, trata-se de um enorme amontoado de adequações sub-ótimas. Na verdade, paradoxalmente a enorme prevalência de convergências indica fortemente que as escolhas são bem mais limitadas, mas que quando elas de fato emergem o produto é soberbo. Você sabia que olhos podem detectar apenas um fóton e nossos narizes capazes de reconhecer (‘cheirar’) uma única molécula? A evolução atingiu o limite do que é possível no planeta Terra. Em particular as portas de nossa percepção podem ser estendidas apenas através da metodologia cientifica, permitindo um grande panorama partindo no Big Bang e chegando ao DNA.

No entanto como o se deu o caminho desde um até o outro? A forma com que a complexidade emergiu e é sustentada, mesmo na quase miraculosa fábrica química que nós chamamos de ‘célula’, ainda é um tanto enigmática. Auto-organização, com certeza está envolvida, mas um dos quebra-cabeças da evolução é a ampla versatilidade de muitas moléculas, sendo utilizadas numa miríade de diferentes capacidades. De fato, hoje é legitimo falar a respeito de uma lógica se aplicando à Biologia. Com certeza, um termo que possa ser ouvido saindo da boca de muitos neo-darwinistas. Mesmo assim, a evolução evidentemente segue regras mais fundamentais. Elas são cientificas, certamente, mas são regras que transcendem darwinismo. O QUE?! Darwinismo não é uma explicação total? Por que deveria ser? Ele é, afinal de contas, apenas um mecanismo, mas se a evolução é previsível, se ela de fato possui uma lógica, então evidentemente está sendo governada por princípios mais profundos. Se você parar pra pensar o mesmo ocorre com todas as outras ciências; por que o Darwinismo deveria ser uma excessão?

Mas tem mais! Como podemos explicar a mente? Darwin se dedicou a pensar a respeito. Poderia ele confiar em seus pensamentos mais do que naqueles provenientes de um cão? Ou pior, talvez houvesse bem ali um ponto (juntamente com a origem da vida) que a sua teoria universal chegasse a uma limitação*? Sob um certo ponto de vista a primeira possibilidade, a hipotese do ‘au-au’, é mais interessante. Porque afinal de contas, ser um produto da evolução não da nenhuma garantia de que tudo aquilo que nós percebemos como racionalidade. E de fato aquilo que ciência e matemática aplicam com sucesso avassalador, tem em sua base pouco mais do que mero capricho. No entanto, se o universo é, de fato, o produto de uma Mente racional e a evolução é simplesmente o mecanismo para a busca que, levando ao sentimento e à consciencia permita que possamos descobrir a arquitetura fundamental do universo – um argumento intuido por muitos matematicos quando eles falam a respeito da eficacia impressionante das ferramentas matematicas – nesse caso, as coisas não apenas começam a fazer muito mais sentido, mas elas se tornam também muito mais interessantes. Adeus niilismo pessimista e sua fria afirmação de que tudo é sem sentido. É claro, Darwin nos disse como poderiamos chegar lá e através de qual mecanismo, mas não nos disse o por que este ocorre em primeiro lugar, e nem como somos de fato capazes de compreende-lo.

Para reiterar: Quando físicos falam, não apenas de um ‘universo estranho’, mas de um universo mais estranho do que somos capazes de imaginar, eles articulam um sentimento de ‘negócios inacabados’, o qual a maior parte dos neo-darwinistas sequer pensam a respeito. É claro, nossos cerebros são produto da evolução, mas alguém seriamente cre que a própria consciencia seja material? Bem, sim, alguns levantam precisamente esse argumento, mas as suas explicações parecem não ter se estabelecido. Nos estamos, de fato, lidando com assuntos inacabados. O funeral de Deus? Eu não creio. Por favor junte-se a mim ao lado do caixão marcado com a inscrição ‘ateismo’. Eu temo que haverão poucas pessoas de luto.

Simon Conway Morris



*A versão original traz escrito:”... theory ran into the buffers”. Não faço idéia do que seja “run into the buffers”, tive que inferir o significado.



Paz de Cristo



4 comentários:

George Huxcley disse...

ótimo texto, meu amigo !!
Parabéns !

Abração !

ah o Ricardo Gondim é bom, vale a pena conferir .

Emiliano M disse...

Obrigado Huxcley! Obrigado pela dica!

Fico feliz que tenha gostado do texto!

Fica na Paz

Michele disse...

:) Mto bom Emiliano, adorei o artigo!

To lendo o God delusion. O pessoal da minha equipe diz que os estudantes em Berlin falam muito sobre o livro, então to lendo. Como o Dawkins é azedo, haha. Depois vou ler o do Alister McGrath em resposta.

Emiliano M disse...

Puxa, que bom que você gostou Michelle! Boa sorte com o Dawkins, achei o livro bem irritante, mas acredite, o cara pega bem mais leve do que por exemplo "Carta a uma nação Cristã"... Esse sim é um livro amargo...

Paz de Cristo